sexta-feira, 4 de agosto de 2017

AS HETERO- E AUTO-CONTRADIÇÕES DA IDEOLOGIA DE GÊNERO

A ideologia de gênero é uma estrovenga teórica hetero- e auto-contraditória. Trata-se de uma articulação teórica com a finalidade de justificar políticas de favorecimento de determinadas “minorias” sexuais. Existem ao menos duas espécies de ideologia de gênero: a feminista e a trans. Elas são contraditórias entre si e autocontraditórias.

A ideologia de gênero feminista se baseia na afirmação de Simone de Beauvoir de que ninguém nasce mulher. A pessoa torna-se mulher em função da experiência de vida. Essa afirmação se baseia em uma distinção entre sexo e gênero. Sexo seria uma categoria biológica, relacionada por exemplo com a funcionalidade reprodutiva do indivíduo. O gênero, por outro lado, é uma categoria social pertinente ao comportamento e ao papel social desempenhado.

De acordo com o feminismo de gênero o sexo é irrelevante, o que faz a identidade da  pessoa é o gênero, o qual consiste de uma construção social. O gênero é uma construção social, sendo circunscrito pela cultura e, portanto, relativo. Como o que importa é o gênero e como este é socialmente construído e descolado da realidade biológica, os papéis de gênero podem e devem ser transformados no sentido de uma busca da liberação das mulheres oprimidas pelo patriarcado.

Apesar de se pretender relativista, ou justamente por causa disso, o feminismo de gênero representa uma forma de determinismo cultural absoluto. Os papéis de gênero são absolutamente desprendidos de quaisquer constrangimentos biológicos. Trata-se do império do constrangimento social, uma vez que a experiência individual pouco conta na definição da identidade. Já que essa é uma construção social.

O feminismo de gênero é auto-contraditório. É relativista por um lado, mas justamente por causa disso acaba virando absolutista social. O feminismo de gênero almeja  realizar as fantasias de pessoas frustradas com seus papéis de gênero, mas ao mesmo tempo nega qualquer papel para a experiência individual na construção da identidade. Uma vez que se trata de uma construção social, a identidade de gênero é sobredeterminada pela cultura. No afã de satisfazer os caprichos do indivíduo, o feminismo de gênero acaba furtando o status de agente ao próprio indivíduo.

A vertente trans da ideologia de gênero é não apenas contraditória com o feminismo de gênero mas também consigo mesma. Se o feminismo de gênero representa uma forma de determinismo social absoluto, o transgenderismo situa-se no pólo oposto. Ou seja, trata-se de uma forma de determinismo biológico absoluto.

O transgenderismo trabalha com a hipótese de que a disforia de gênero, ou seja o desconforto que cerca de 0,6% dos indivíduos sentem em relação ao próprio sexo, resulta do fato de que o indivíduo teria um “cérebro de um sexo em um corpo de outro sexo”. A hipótese em si não é absurda. As evidências biológicas indicam que há um dimorfismo sexual na espécie humana, inclusive no cérebro humano. As evidências indicam, entretanto, que o processo de diferenciação sexual tanto do cérebro quanto do organismo como um todo é muito complexo, ocorrendo de forma epigenética e probabilística sob a influência de fatores genéticos,  hormonais e experienciais. Falar, p. ex., de um “cérebro feminino em um corpo masculino”ou vice-versa é uma simplificação grosseira. Daí a inferir que o corpo pode ou deve ser transformado para se adequar ao cérebro é uma insanidade.

As diferenças neuropsicológicas entre homens e mulheres são por demais conhecidas. Realmente, os cérebros de homens e de mulheres diferem sob diversos aspectos. O cérebro da mulher experimenta, p. ex., modificações anátomo-funcionais no hipotálamo relacionadas ao ciclo menstrual, à gestação, parto, amamentação etc. A oxitocina é o hormônio preponderante dos vínculos afetivos femininos, sendo no homem o seu papel reduzido e realçada a função da arginina-vasopressina.

Os homens e as mulheres diferem também do ponto de vista cognitivo e quanto a características de personalidade. As habilidades espaciais alocêntricas de homens costumam ser maiores. As mulheres têm mais habilidades verbais. A agressividade e competitividade feminina e masculina são diferenciadas. As mulheres são mais empáticas e mais motivadas para o carinho e o cuidado etc.

Mas essas diferenças neuropsicológicas entre homens e mulheres não deixam de se revestir de um caráter estereotipado. Correspondem mais a tipos ideais do que à realidade nuançada. P. ex., a média de QI de homens e mulheres é igual. As diferenças entre o QI verbal superior nas mulheres e o QI não-verbal superior nos homens são muito pequenas e somente adquirem significância estatística em amostras gigantescas. A variabilidade populacional dessas características é muito grande, sendo maior nos homens e menor das mulheres. Adicionalmente, a variabilidade intrasexual é maior do que a variabilidade intersexual. Ou seja, existe uma sobreposição entre as distribuições de características neuropsicológicas de homens e mulheres. Há homens mais “femininos” e mulheres mais “masculinas”.

Todos esses fatos indicam que, realmente, as diversidades sexuais e de gênero têm um caráter estereotipado. O que não significa que elas sejam desprovidas de significado na economia cognitiva e social. É prudente, entretanto, não fundamentar decisões pessoais e políticas públicas em estereótipos que constituem apenas representações grosseiras e aproximadas de uma realidade muito mais nuançada.

Tem um exemplo adicional que é matador. A testosterona é produzida em maior quantidade em homens e se associa a diversas características comportamentais masculinas, tais como agressividade e habilidades visoespaciais. Mas a testosterona também regula funções importantes na mulher, tais como o desejo e a iniciativa sexual.

Existem casos-limites que podem ser usados para ilustrar as nuances e indeterminismos subjacentes à diferenciação sexual do cérebro e do organismo. Estou com preguiça agora de fazer uma revisão bibliográfica. Cito apenas alguns casos, sob pena de cometer enganos brutais. O que importa é o sentido geral.

O biólogo holandês Dick Swaab descobriu um gene no hipotálamo de ratos que influencia o comportamento sexual. Polimorfismos desse gene se associam a variabilidade no comportamento sexual. Um dos genótipos se caracteriza por comportamento heterossexual ou homossexual masculino dependendo do nível de iluminação no ambiente. Esse resultado é sensacional porque ilustra tanto uma regulação genética quanto ambiental de um comportamento bastante complexo que é o coito.

O cortisol é um precursor metabólico da síntese de androsteróides. Existem duas situações clinicas associadas a aumento dos níveis de cortisol no feto: a síndrome de hiperplasia adrenal congênita e o tratamento da mãe com corticoesteróides durante a gestação. Nesses casos, as meninas apresentam um risco de apresentar comportamentos caracterizados como tomboyismo. Ou seja, demonstrar preferência por brincadeiras e papéis de gênero típicos do sexo masculino. Esses casos ilustram a discrepância que pode haver entre o sexo geneticamente definido e o comportamento fortemente influenciado pelos hormônios.

A importância dos hormônios sexuais na diferenciação do comportamento de gênero é ilustrada também pela síndrome do testículo feminilizante ou insensibilidade congênita aos andrógeno. Nessa doença genética, a pessoa é cromossomicamente masculina, os testículos produzem testosterona, mas um defeito nos receptores hormonais faz com que a testosterona não atue da forma devida nos tecidos e não ocorra a diferenciação sexual masculina. O resultado é uma pessoa que é geneticamente do sexo masculino mas cujo cérebro e comportamento foram hormonalmente fortemente diferenciados para o sexo feminino. Fenotipicamente, a pessoa é uma mulher que pode ter corpo e desejo de mulher. Só que é uma mulher com  cariótipo 46XY. Quer dizer, o cromossoma Y não está com essa bola toda. Seus efeitos dependem de uma série de influências ambientais, inclusive hormônios fetais. Muitos desses casos apresentam intersexo, ou seja, genitália ambígua. Nesses casos a recomendação médica é pela feminilização.

O gene dimórfico do Swaab, os efeitos dos corticosteróides no feto feminino e a síndrome do testículo feminilizante indicam que  a hipótese do “cérebro feminino em corpo masculino” ou vice-versa para explicar a disforia de gênero não é um absurdo em si, apenas uma esterotipação de uma realidade muito complexa. As evidências sugerem que o cérebro de um homem geneticamente definido pode desenvolver  diversas características dimórficas femininas. Mas isso não é um fenômeno tudo ou nada. Daí não se pode depreender que ele tenha um “cérebro feminino”.

O conhecimento da variabilidade psicobiológica inter- e, principalmente, intrasexual indica que essa noção de cérebro feminino ou masculino representa tipos ideais. Esses tipos ideais são como a média e o desvio-padrão estatísticos. São abstrações que não existem na realidade idiográfica. A variabilidade psicobiológica intrasexual é tão grande que fica muito difícil afirmar que uma pessoa tenha um cérebro de um sexo ou de outro. Se é que isso existe. De mais a mais, biologia não é destino. Ou seja,  a experiência de vida também conta, e muito. A partir do fato de que uma pessoa tem mais ou menos características cerebrais ou comportamentais do sexo oposto não se pode concluir que ela possa ou precise mudar de sexo.

O feminismo e o transgenderismo são, portanto, contraditórios entre si e auto-contraditórias. O feminismo de gênero é absolutista social e o transgenderismo absolutista genético. Ambos são auto-contraditórios porque, a pretexto de compensar uma frustração ou satisfazer um desejo subjetivo, retiram da pessoa toda e qualquer possibilidade de individuação subjetiva. Ou seja, de agência. No caso do feminismo o indivíduo se transforma em uma vítima da cultura e no caso do transgenderismo em uma vítima da biologia.

 Ambos, feminismo de gênero e transgenderismo, contrastam com a concepção científica da diferenciação sexual nos seus diversos níveis: genético e ambiental. A concepção científica contemporânea é de que o desenvolvimento humano ocorre de forma epigenética. Ou seja, depende de interações muito complexas entre múltiplas influências genéticas e experienciais. Os hormônios fetais constituem um fator ambiental que desempenha um papel importante no caso. O feminismo de gênero nega o papel da biologia e o transgenderismo nega o papel do ambiente. A biologia, ao contrário, preocupa-se em compreender como essas diversas formas de influência resultam no dimorfismos anatômico, funcional e comportamental entre os sexos.

Tudo isso não significa que não existam pessoas com disforia de gênero e que elas não mereçam respeito e cuidado. Uma analogia pode ser feita entre a disforia de gênero e o transtorno de identidade/integridade do corpo (Giummarra et al., 2011). Nesses casos, uma pessoa pode p. ex., solicitar atendimento médico porque deseja que o cirurgião lhe ampute um membro. A pessoa tem a sensação de que o membro não lhe pertença e deseja amputá-lo. Esses casos, felizmente, são raros mas existem. O que os médicos devem fazer? Amputar o membro que gera a disforia?

A base biológica do transtorno de identidade/integridade do corpo não é bem conhecida. Mas deve existir. Uma hipótese é que haja algum tipo de disfunção nas redes neurais que sustentam as diversas representações corporais, principalmente em circuitos parietofrontais e na ínsula do hemisfério direito. Mas o fato de que uma disforia em relação a um membro possa ter uma base neurobiológica justifica que o cirurgião realize uma amputação?

Da mesma forma, a base neurobiológica da disforia de gênero não é bem conhecida. Mas deve existir, apesar de que há razões para crer que essa idéia de um cérebro de um sexo no corpo do sexo oposto representar apenas uma estereotipação de uma realidade bem mais complexa. Mas o fato de a disforia de gênero eventualmente ter uma base biológica é razão suficiente para indicar cirurgias e/ou tratamentos hormonais para mudança de sexo?

E caso essas cirurgias e tratamentos hormonais eventualmente se justifiquem, quais serão os seus efeitos? Elas realmente atingirão seus objetivos de propiciar um corpo congruente com a identidade sexual?  Quais são as conseqüências desses tratamentos para o bem-estar da pessoa? E se a pessoa arrepender-se da mudança de sexo? Quem deve financiar esses tratamentos? Qual é a prevalência real da disforia de gênero que justifica a atenção que vem recebendo da opinião pública? Por que as crianças precisam aprender sobre isso na escola? É eticamente aceitável realizar cirurgias de mudança de sexo em crianças e jovens confusos quanto à própria identidade sexual?

Essas todas são questões que permanecem sem resposta. O debate está emocionalmente tão carregado que desperta suspeição quanto aos dados apresentados e aos interesses subjacentes dos partidários e adversários da ideologia de gênero. Uma visão equilibrada sobre o assunto  foi apresentada por Mayer e McHugh (2016 -  o artigo está disponível gratuitamentena internet), dois pesquisadores da Universidade de Johns Hopkins, os quais fizeram uma extensa revisão de centenas de trabalhos científicos. A partir dessa ampla da revisão da literatura é possível concluir que se sabe muito pouco sobre o assunto. E o pouco que se sabe não justifica as intervenções radicais, médicas e sociais, que estão sendo propostas por alguns grupos de lobby.

Voltamos então novamente à questão: Quais são os interesses subjacentes à atenção que o assunto tem recebido na mídia e à insistência com que a ideologia de gênero procura se impor à opinião pública que, majoritariamente, a rejeita?

Eu só consigo encontrar uma resposta a essa questão no pensamento de Nietzsche. O que está por trás do escarcéu todo que está sendo feito com essa história, tratando-a como se fosse o problema mais premente da Humanidade, é a frustração e o ressentimento. Frustração porque a realidade não corresponde aos desejos da pessoa. Ressentimento porque outras pessoas não experimentam esses mesmos sentimentos de frustração e cuidam da própria vida.

Para falar  psicanaliticamente, o problema parece consistir de um narcisismo exacerbado, uma recusa a aceitar o princípio da realidade, uma tentativa de transformar a realidade de modo a adequá-la ao próprio desejo. Mas, se o desejo é do campo do subjetivo, o que justifica que o mundo precise se adequar a ele? O que as outras pessoas tem a ver com a história? Por que as pessoas que não concordam com a ideologia de gênero devem ser criminalizadas como “machistas” ou “transfóbicas”? E, principalmente, está certo o que estão tentando fazer com as nossas crianças nas escolas que adotam a ideologia de gênero como diretriz curricular?



Referências

Giummarra, M. L., Bradshaw, J. L., Nicholls, M. E. R.,. Hilti, L. M. & Brugger, P. (2011). Body integrity identity disorder: deranged body processing, right fronto-parietal dysfunction, and phenomenological experience of body incongruity. Neuropsychological Review, 21, 320-333.

Mayer, L. S. & McHugh, P. R. (2016). Sexuality and gender. Findings from the biological, psychological, and social sciences. Atlantis, 50, 4-143.

3 comentários:

  1. O problema é que hoje vale a auto-declaração anterior à puberdade pra se iniciar o bloqueio da puberdade com hormonios...

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  2. Observação excelente e exemplifica muito bem a questão da ideologia de gênero.

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  3. Prezado Prof. Vitor Haase,
    As políticas de gênero surgem como um passo evolutivo do discurso socialista.
    Na sua origem, o socialismo baseava-se na luta de classes: burguesia x proletariado.
    O capitalismo, porém, teve o condão de elevar o nível de vida dos operários e, já no início do século passado, os operários (proletários) haviam-se “aburguesado”.
    O discurso dos socialista sobre as minorias oprimidas continuaria, mas agora com as novas vítimas do sistema capitalista opressor: as mulheres, os negros, os gays, os índios, os sem-terra e “tutti quanti”.
    O ponto central de todo o discurso socialista é a cultura ocidental (filosofia greco-romana e cultura judaico-cristã). Proletários, mulheres, gays, minorias raciais, todos são apenas pretextos políticos para a “revolução cultural”.
    No Brasil, Gramsci foi e continua sendo o grande arquiteto da nova cultura que vem sendo edificada, de cima para baixo, pela mídia e, mais recentemente, pelas escolas e pelo Judiciário.
    Parabéns pelo brilhante artigo!

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